Oração hoje!

Oração hoje!

                         Uma geração que desaprendeu a orar
 

Sem oração, a vivência da fé não passa de banal reflexão ou presunçosa ação.
É a oração que valida o refletir, o existir e o agir cristãos como realidades-verdadeiras, do ponto de vista de Deus.

No século 20, o pensar teológico divorciou-se quase que completamente da oração.

Hoje, mesmo os teólogos defensores de teologias mais existenciais ou metafísicas, não conciliam o seu discurso sobre a oração com uma prática da oração no dia a dia.

O mesmo fenômeno pode ser observado naqueles que são utilitaristas na oração. Os que crêem que a oração tem de trazer algum resultado prático para a vida.

Tal oração não tem, em si, o germe do prazer de buscar a Deus por Deus mesmo. Busca-se a Deus pelo que Ele pode fazer. Embora a própria seqüência de "buscar, pedir e bater", ensinada por Jesus, demonstre que a oração deve ser, também, praticada com "finalidades" específicas; tal objetividade, não é a razão de ser da oração. Jesus orou, sobretudo, a fim de estar com o Pai.

Observa-se, também, a ausência de oração no projeto de vida dos que praticam a teologia horizontal. Para quem o que vale é servir o carente.

Não nego que a Bíblia ofereça base teológica para afirmar que os atos de misericórdia são, em si mesmos, orações. O problema é que a maioria dos que professam esta convicção parou de orar. A teologia horizontal tornou-se justificativa para a ausência de oração em suas vidas.

No passado, uma mãe orava pelo filho distante, sempre que sentia saudades. Hoje, ela telefona e sabe se o filho passa bem. Um fazendeiro orava para que chovesse no dia e na semana seguintes. Hoje, consulta o serviço meteorológico. Os pais oravam para que os filhos nascessem homens ou mulheres. Hoje, fazem um ultrassom e sabem do sexo por antecipação.

Enfim, muitas das coisas que faziam orar no passado já não o fazem mais, automaticamente, no presente.

Tenho encontrado muita gente que desistiu da oração e, até de Deus, porque não entende como Deus "agüenta" ver o mundo como ele é, sem fazer nada.
O drama humano e social tem justificado filosoficamente o ateísmo de muitos, assim como, amargurado, o coração de muitos cristãos. Ficam ressentidos com Deus e param de orar, mergulham no ativismo de programas sociais e na militância sócio-política que não ora, mas, que tem, ainda, o mérito de crer em Jesus como o grande solidário.
A miséria tem calado muitas vozes de oração.

Um dia um irmão chegou à minha casa, no meio do meu tempo de oração, e perguntou-me: - "O que o senhor está fazendo agora?". Eu disse que estava orando conforme fazia todas as manhãs Ele, então, me disse: - "Bem, já que o senhor não está fazendo nada, que tal o senhor ir fazer uma visita comigo?".

Para algumas (muitas!) pessoas orar é não fazer nada. A modernidade não admite o ser-estar, mas, o ser-indo.

Do ponto de vista bíblico, orar é ora-ação. É desencadear poderes no interior humano e no céu, os quais se transformam nas ações mais eficazes na Terra. E ato de conspir-ação com o mais forte de todos os aliados. É subverter situações e dar golpe de estado em coisas imutáveis.

A oração é parte da "dinâmica" da vida e das atividades de Jesus. Ele é visto diariamente a sós no deserto, no monte, numa caverna, à beira-mar ou cedinho, no templo.

Modernamente a oração tomou-se símbolo da impotência humana. Daquilo que se faz quando não se pode fazer nada de prático. Para Jesus, no entanto, nada era mais prático do que orar.

Nossa geração encara oração como "desperdício". Oração, no entanto, é investimento. O melhor de todos eles.

"Oração tem que deixar de ser um rito, e passar a ser um estado interior. As pessoas têm tanta dificuldade para separar um tempo para orar apenas porque não oram o tempo todo.  A oração precisa ser a conversa da alma consigo mesma na presença de Deus, e a conversa da alma com Deus enquanto fala de si mesma. Ora, isto pode acontecer em todo o lugar, pois esse "ambiente" é móvel. É no caminho, é enquanto se está indo... e vivendo...Quando a mente se habitua a pensar diante de Deus—qualquer pensamento—, e existe consciente de que sua essência se alimenta de Deus, todo e qualquer tempo, o tempo todo, é oração. Deve-se orar sem cessar, e isto só é possível se a vida não tiver que cessar para se orar.

 Enfim, tudo é oração quando a vida acontece sem "departamentos" diante de Deus.Creio que as pessoas têm tanta dificuldade de orar porque Deus é um "departamento" da vida delas, e porque a oração é ainda um sub-departamento da "Seção Deus".Mas quando toda a vida é vida com Deus, e quando a Deus é toda a nossa vida, orar passa ser como respirar.E a gente respira para viver, mesmo nas piores horas da vida.O Salmo 139 ensina o significado de Deus para uma consciência para quem a totalidade da vida acontece em Deus."Se subo aos céus, lá estás... se faço a minha cama no mais profundo abismo, lá estás também!"Depois que a fé nos coloca em Deus com essa naturalidade, orar passa a ser uma coisa tão espontânea quanto respirar, e o separar um tempo para a oração em solitude e silêncio no quarto ou em algum lugar, não é um peso, é a continuidade da vida. Era assim com Jesus.O propósito é que seja assim com a gente!"

 

O modo comum das pessoas pensarem em oração é o mesmo com o qual elas pensam em “concentração mental”. Comumente se pensa que a força da oração é do tamanho do esforço mental feito pela pessoa que ora. Desse modo, crê-se que os ouvidos de Deus são abalados pelas emissões de nossas energias de grito mental, e, freqüentemente, gritos mesmo... Também pensa-se que somos nós quem damos o tema da oração para Deus. Espiritualmente, entretanto, o processo é justamente o inverso. Não é Deus quem pára para me ouvir. Eu é que devo ficar em oração até ouvir Deus. Todos nós sabemos há muito que a oração não muda a Deus; muda, sim, aquele que ora. Oração é um contínuo processo de pensar não de si-para-si, mas em Deus; não digo “em Deus” como se Deus fosse o “objeto” da nossa concentração mental; como se faz com “um deus” que tem que ser alcançado... que está longe... e, portanto, é um outro objeto...ainda que eu o chame de “Deus”. Não! Assim como a Verdade, a oração não é um trabalho mental, nem é objeto de uma teologia, nem de uma doutrina; muito menos é sonho e mágica. Oração é um pensar-ouvir-ser em Deus. Oração é um ato, não é uma mecânica. O ato de orar é como o ato de viver. Os temas da oração são sempre os temas do ser; daí, haver sempre oração, mesmo quando estou em silencio. O Pai vê em secreto! Orar é conexão, é relação, é vinculo, é segredo! É como passar um e-mail para um amigo, mas só se poder ter a certeza de que a notícia vai chegar se a conexão acontecer—e a gente só sabe que a notícia chegou porque há resposta; sendo que o “provedor de acesso” é amor, sinceridade, flagrante, e nudez. Quem ora deve saber que trata-se de uma relação que não aceita brincadeira de esconde-esconde. Aquele que ora aceita ficar nu até onde lhe seja possível enxergar-se por inteiro. Sem nudez não há oração! Oração é também gratidão. E a gratidão da oração não é pelas coisas recebidas, e nem pelas conquistas; pois, se assim fosse, eu só poderia agradecer umas poucas vezes na vida. Não! Oração é gratidão por Deus! É essa gratidão em Deus e por Deus é aquilo que Paulo diz que santifica todas as coisas! A gratidão é a oração que limpa os olhos; e não somente eles, mas limpa o nosso olhar do mundo. Assim, todas as coisas ficam puras pelas ações de graças. E quando alguém ora, não deve nunca duvidar. Mesmo quando as respostas parecem ter sido enviadas pelo próprio diabo, visto quem nem sempre Deus responde o que queremos; ainda que sempre responda me propondo o que faz bem, mesmo quando dói.

Oração, portanto, é aquilo que sai do ser, e é o ser santificado. Esse tal assim o é em Deus; e o é com a constante consciência de que Nele sempre se está nu.

Oração é, sobretudo, Confissão de Graça. Confissão da Graça recebida, e confissão da Graça oferecida aos nossos devedores. Sem que seja assim, toda oração é mero discurso. Então, para o engano daquele que ora, aconselha-se que grite muito, e faça toda a concentração mental que puder. Não adiantará de nada diante de Deus, mas o “devoto” vai para casa com a dor de cabeça de quem pensa que orar é um grande esforço e que é o fruto de muitas e muitas repetições. Quem ora fala pouco em oração; isto é o que tenho aprendido faz muito tempo.

Jesus disse que deseja que a nossa alegria, a alegria dos discípulos do Evangelho, dos seguidores da Palavra da Vida, seja alegria completa; não em parte, mas plena; assim como plena, diz Ele, deve ser a nossa vida; visto que Ele, de Si mesmo, dizia a nós: “Sem mim nada podeis fazer” — deixando-nos desse modo claro que a certeza de que nossa alegria só pode vir de nossa relação de implante Nele.

No lugar no qual Ele disse que deseja que nossa alegria seja completa [João 17], Sua referencia a completude de nossa alegria se vincula à nossa confiança em Deus, pela qual temos com Ele a intimidade de pedir em oração, sobretudo se a disposição do coração é permanecer na Sua Palavra; assim como um ramo sadio e frutuoso de uma videira só continua sadio e frutuoso se permanecer ligado ao tronco da videira.

A oração [...] pode ser nossa grande fonte de alegria!

Todavia, não existe nenhum poder na oração em-si...

Oração não é mandinga e nem macumba...

Digo: oração a Jesus [...] não o é!...

Sim, pois oração a Jesus, mesmo que use o nome de Jesus, só é oração em Jesus e para Jesus... — se for em conformação à Palavra de Jesus, ao Evangelho; posto que orações feitas a Jesus, em nome de Jesus, mas fora do espírito do Evangelho, fora do ensino de Jesus, longe do mandamento do amor e do perdão, afastadas do sentido do que Jesus chama vida e valor diante de Deus, não são orações a Deus, mas àquele que ama o ódio, o capricho, a magia, a manipulação, o culto à própria vontade, à necessidade psicológica carrega de morte e perversão, a mentira, a vingança e a hipocrisia..., que é o diabo.

Jesus, no entanto, mandou que orássemos mais do que nos mandou fazer qualquer outra coisa!...

Além disso, Ele disse que a oração que acontece em paz e submissão à vontade de Deus e segundo o espírito do Evangelho, sempre será ouvida; e sempre trará até nós a certeza e a demonstração de nossa amizade com Deus pela obediência em fé ao Evangelho; posto que os verdadeiros amigos de Deus, os que pedem e recebem, são amigos de Deus apenas porque demonstram seu amor e fé pela permanência no mandamento do amor, que é o sentido do Evangelho.

Desse modo Jesus ensina que a oração é o fator mais simples e prático de experiência de alegria espiritual, quando se ora com amor e submissão, quando se pede com confiança, quando se intercede com amizade e ardente amor fraterno, quando mesmo desejando algo, e pedindo algo com clareza especifica, ainda assim não se faz a esperança escrava do desejo pessoal, pois apesar de se pedir, pede-se Àquele que sabe o que nos será melhor...; coisa que o mais esclarecido de nós está longe de saber.

Pergunto por que a maioria dos crentes que eu conheço só ora em vigília ou reunião de oração, pois, na solitude [...] não crêem que serão ouvidos; posto que se fiam no “ajuntamento dos que oram” como se fosse um poder-em-si... — e isto porque não têm amizade com Deus, posto que pessoalmente saibam que não mantêm nenhuma amizade com Jesus pela obediência ao Evangelho e ao mandamento do amor, do perdão e da misericórdia.

Sim, não crêem em sua amizade com Deus, e, por isto, não oram; posto que temam não receber; visto que somente pensem em resposta às suas orações como atendimento aos seus caprichos, os quais, são egoísmos oferecidos como petição ao Pai.

Daí temerem orar sozinhos...

Daí precisarem da oração grupal como elemento de força aos seus pedidos pessoais...

 

Caio Fábio